A evolução das tecnologias através da inteligência artificial, como ChatGPT e similares, já assemelham de forma surpreendente o trabalho do locutor e/ou apresentador de áudio e vídeo em diversas circunstâncias e estilos.
Isso pode ser verdade quando se trata de uma locução de estilo padrão (uma voz de timbre agradável, bem articulada, com uma cadência melódica) ou no chamado "naturalzinho descomprometido”.
A matéria-prima utilizada é humana, fornecida pelos profissionais (humanos), que carregam a memória desses sistemas com uma infinidade de locuções, ou no caso de vídeo, com um grande banco de apresentadores reais de vídeo com a chamada apresentação “padrão” (expressão mais rígida e distanciada com movimentos marcados e repetitivos) ou avatares que permitem uma incontável combinação de imagem e vozes em uma diversidade de cenários criados digitalmente.
Uma oferta de encher os olhos para os clientes ávidos por uma apresentação de qualidade “padrão” a preços infinitamente menores.
Basta escolher a voz, feminina ou masculina, infantil, jovem ou madura, com um estilo neutro, clássico, formal, animado ou o "naturalzinho descomprometido".
Além de velocidade, pausa, ênfase e uma meia dúzia de micro gestos para os avatares.
Prepare-se para esse novo mercado
A urgência é que o profissional de comunicação tem que ser mais bem preparado para não perder a profissão para essa “Matrix”.
Não adianta falar que não vai funcionar porque o locutor humano dá emoção, vida ao texto.
Isso é bobagem já que essas IAs têm alimentadas suas memórias por profissionais homo sapiens sapiens, que gravam com toda a emoção necessária e, tal material, fica ao bel prazer da inteligência artificial para combiná-las conforme o padrão solicitado.
O telefone foi praticamente substituído pelo surgimento do WhatsApp. A reclamação das empresas tradicionais de telefonia foi geral. Todas as tentativas políticas e jurídicas foram acionadas para tentar deter essa nova forma ágil e, principalmente, de baixo custo para a comunicação. Em vão.
Hoje, com recursos de voz, imagem, vídeo, documentos e tantos outros. O telefone padrão virou um dinossauro usado por poucos.
Mas logo depois chegou um serviço arrojado como o Zoom, Google Meet e outros, que tornaram ainda mais arrojada essa comunicação a um custo muito mais alto para o usuário.
Acredito que o mesmo acontecerá com os comunicadores de áudio e vídeo.
Explico: uma pesquisa realizada pela Universidade de Los Angeles detectou a existência de até 700 mil gestos diferentes na natureza humana.
Movimento é diferente de gesto
Coloco aqui que movimento é diferente de gesto. Movimento é apenas movimento, andar, levantar, sacudir. O gesto é um movimento que comunica algo, como fazer um V de vitória com os dedos, sorrir, desenhar um objeto com as mãos etc.
A mesma pesquisa mostra que as nuances vocais representam quase 40% da comunicação ocidental (o que atende plenamente a comunicação linear das mídias).
Sabemos que a nuance vocal está diretamente ligada ao movimento do corpo e sua integração.
Todo movimento corporal tem a sua nuance equivalente. Assim, podemos realizar até 700 mil nuances vocais diferentes. Coisa que, mesmo na área cênica, só raros atores conseguem desenvolver na sua técnica de interpretação.
Temos na interpretação arrojada a variação de tempo-ritmo (que não se limita só a pausas e velocidade), além da técnica de divisão dos grandes e pequenos tempos da interpretação verbal do texto como: manchete, apresentação, relato, conclusão, pautas, degraus de intensidade e patamares.
Essas são características técnicas de interpretação ainda muito difíceis, mesmo para uma avançada IA.
Desconheço as possibilidades de o mundo digital dominar tais temas tão cedo, embora acredite que ainda vai melhorar muito em um relativo curto espaço de tempo!
Enfim, essa é a grande saída, ou melhor, permanência do profissional de comunicação no mercado do século XXI.
E assim como WhatsApp para o Zoom, este profissional será muito mais desejado e, consequentemente, mais bem recompensado em valores econômicos.
Isso exigirá do profissional da comunicação uma preparação muito mais arrojada na sua interpretação vocal e corporal.
Caso contrário, poderá continuar reclamando, fazendo chacota e cara feia para as novas tecnologias, mas o trem bala vai passar e você ficará fora dele.
Bibliografia
SANTAELLA, Lucia. Matrizes da linguagem e pensamento: sonora, visual, verbal: aplicações na hipermídia. São Paulo: Editora Iluminuras, 2001.
VIEIRA, Regina. Técnica de Alexander: postura, equilíbrio e movimento.São Paulo: Editora Terceiro Nome, 2009.
KUSNET, Eugênio. Ator e Método.Rio de Janeiro: Instituto Nacional de Artes Cênicas (Coleção Ensaios), 1985.
MEHRABIAN, Albert. Non Verbal Communication. Editora Routledge, 2007.
STANISLAVISKI, Constantin. A Criação de um Papel.Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1984.
Barreto, Pedro, Interpretação para comunicadores de áudio e Vídeo (guia práticoSão Paulo: Editora Renoir, 2001.
Autor:
Pedro Barreto é bacharel em teatro, locutor, apresentador e diretor de áudio e vídeo. Há 34 anos desenvolveu o "Método Pedro Barreto para Comunicadores de Áudio e Vídeo".
Já atendeu mais de 10.000 comunicadores no Brasil.
Autor do livro "Interpretação para Comunicadores de Áudio e Vídeo (guia prático)".
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